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Gastrite: Sintomas, Tratamento e Diagnóstico Completo em Recife

A gastrite é uma das condições mais frequentes no consultório gastroenterológico, caracterizada pela inflamação da mucosa gástrica. Embora muitas pessoas usem o termo de forma genérica para qualquer desconforto estomacal, a gastrite possui características clínicas específicas, critérios diagnósticos precisos e abordagens terapêuticas baseadas em evidências. Este guia médico aborda de forma detalhada os sintomas, métodos diagnósticos, opções de tratamento e quando procurar um gastroenterologista especializado.

GastroenterologiaAtualizado em Revisão: Dra. Ana Beatriz Sacerdote

O Que É Gastrite e Como Se Desenvolve

Usamos o termo gastrite para indicar a presença de inflamação no estômago. O diagnóstico é feito por biópsia, a gastrite é definida histologicamente como a presença de infiltrado inflamatório na mucosa gástrica. Ao conjunto de sintomas que a gastrite pode causar, damos o nome de Dispepsia. É fundamental diferenciar gastrite de dispepsia: enquanto a dispepsia descreve sintomas (dor ou desconforto na região superior do abdome), a gastrite é um diagnóstico anatomopatológico que requer confirmação por biópsia durante endoscopia digestiva alta.

A inflamação pode ser classificada em aguda ou crônica, dependendo do tipo de células inflamatórias presentes. A gastrite aguda caracteriza-se pelo predomínio de neutrófilos, enquanto a crônica apresenta infiltrado linfoplasmocitário. Esta distinção é importante porque influencia diretamente a abordagem terapêutica e o prognóstico.

Classificações da Gastrite

Segundo a classificação de Sydney, atualizada posteriormente pelo sistema OLGA (Operative Link on Gastritis Assessment), a gastrite pode ser categorizada de acordo com o local do estômago acometido (antro, corpo ou todo o estômago - pangastrite), morfologia (enantematosa, erosiva, atrófica) e etiologia. Esta classificação permite avaliar o risco de complicações, especialmente atrofia e metaplasia intestinal, que são consideradas lesões pré-neoplásicas.

  • Gastrite enantematosa: apresenta apenas hiperemia (vermelhidão) da mucosa sem erosões
  • Gastrite erosiva: caracterizada por erosões superficiais
  • Gastrite atrófica: perda de glândulas gástricas, podendo evoluir para metaplasia intestinal
  • Gastrite hemorrágica: presença de sangramento ativo ou recente

A presença de metaplasia intestinal e atrofia gástrica aumenta o risco de adenocarcinoma gástrico, necessitando seguimento endoscópico periódico conforme protocolo estabelecido.

Sintomas da Gastrite: Como Reconhecer os Sinais Clínicos

Os sintomas da gastrite variam consideravelmente entre os pacientes e, interessantemente, não existe correlação direta entre a intensidade dos sintomas e a gravidade da inflamação encontrada na endoscopia. Alguns pacientes com gastrite intensa podem não sentir nada, enquanto outros com alterações discretas apresentam sintomas significativos.

Manifestações Clínicas Mais Comuns

A dor ou desconforto epigástrico (região superior central do abdome) é a queixa mais frequente. Caracteristicamente, esta dor pode ser descrita como queimação, peso ou sensação de estômago cheio. Na gastrite relacionada ao Helicobacter pylori, a dor pode melhorar temporariamente com a alimentação, mas retornar após algumas horas.

  • Dor ou queimação epigástrica, especialmente no período pós-alimentar ou ao acordar
  • Náuseas e episódios de vômitos, que podem trazer alívio temporário
  • Sensação de plenitude precoce ou empachamento mesmo após refeições pequenas
  • Distensão abdominal e eructações frequentes (arrotos)
  • Perda de apetite e, em casos prolongados, emagrecimento não intencional
  • Hematêmese (vômitos com sangue) ou melena (fezes escurecidas) em gastrites erosivas graves

Sinais de alarme como vômitos persistentes, sangramento digestivo, emagrecimento inexplicado, disfagia (dificuldade para engolir) ou anemia requerem avaliação endoscópica urgente para excluir complicações graves.

Gastrite Aguda versus Crônica: Diferenças Sintomáticas

A gastrite aguda geralmente apresenta início súbito dos sintomas, frequentemente relacionado a um fator desencadeante identificável como uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), consumo excessivo de álcool ou estresse fisiológico grave. Os sintomas tendem a ser mais intensos, incluindo náuseas importantes e dor epigástrica significativa.

Já a gastrite crônica desenvolve-se de forma insidiosa ao longo de meses ou anos. Os sintomas são tipicamente mais leves e intermitentes, podendo haver longos períodos sem sintomas. A gastrite crônica por H. pylori, por exemplo, pode permanecer silenciosa por décadas até o desenvolvimento de complicações como úlcera péptica ou, mais raramente, neoplasia gástrica.

Se você apresenta sintomas digestivos persistentes, agende uma consulta especializada em gastroenterologia para avaliação diagnóstica adequada.

Principais Causas e Fatores de Risco para Gastrite

A etiologia da gastrite é multifatorial, com diversos agentes causadores identificados. O conhecimento da causa específica é fundamental para direcionar o tratamento adequado e prevenir recorrências.

Helicobacter pylori: Principal Agente Etiológico

O Helicobacter pylori é uma bactéria gram-negativa espiralada que coloniza a mucosa gástrica, sendo responsável por aproximadamente 80-90% dos casos de gastrite crônica não erosiva. A infecção geralmente é adquirida na infância, por via fecal-oral ou oral-oral (alimentos contaminados), e persiste por toda a vida se não tratada adequadamente.

A bactéria induz resposta inflamatória crônica que pode evoluir para atrofia gástrica, metaplasia intestinal e, em uma pequena porcentagem de casos, adenocarcinoma gástrico ou linfoma MALT.

Gastrite Medicamentosa

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) são a segunda causa mais comum de gastrite, especialmente em pacientes idosos. Estes medicamentos inibem substâncias são essenciais para a proteção da mucosa gástrica. O ácido acetilsalicílico (aspirina), mesmo em doses baixas, pode causar lesões na mucosa.

Outras medicações que podem causar gastrite:

  • Corticosteroides em doses altas ou uso prolongado
  • Bisfosfonatos utilizados no tratamento de osteoporose
  • Suplementos de potássio ou ferro em algumas formulações

Outros Fatores Etiológicos

  • Gastrite autoimune: A gastrite autoimune é uma condição mais rara, caracterizada pela produção de autoanticorpos contra células do estômago. Esta condição pode resultar em deficiência de vitamina B12 e anemia perniciosa.
  • Uso de álcool: O consumo excessivo de álcool causa gastrite aguda por efeito tóxico direto sobre a mucosa.
  • Refluxo Biliar: O refluxo biliar, condição na qual bile e secreções pancreáticas refluem para o estômago (mais comum em pacientes gastrectomizados), também pode causar gastrite química.
  • Infeccções: Infecções virais (citomegalovírus, herpes simples) são causas raras, geralmente restritas a pacientes imunossuprimidos.

Fatores de risco como tabagismo, estresse crônico, dieta inadequada e história familiar positiva para doenças gástricas devem ser investigados e abordados no plano terapêutico integral.

Diagnóstico da Gastrite: Exames e Avaliação Especializada

O diagnóstico definitivo da gastrite requer confirmação através de biópsias obtidas durante endoscopia digestiva alta. A avaliação clínica isolada não permite distinguir gastrite de outras causas de dispepsia, tornando a endoscopia um exame fundamental na investigação diagnóstica.

Endoscopia Digestiva Alta com Biópsias

A endoscopia digestiva alta (EDA) é o exame padrão-ouro para diagnóstico e caracterização da gastrite. Durante o procedimento, o gastroenterologista visualiza diretamente a mucosa gástrica, identificando alterações como hiperemia, edema, erosões, atrofia, presença de bile ou sangramento. O protocolo de Sydney recomenda a coleta de pelo menos cinco fragmentos de biópsia: dois do antro, dois do corpo gástrico e um da incisura angularis.

As biópsias são processadas e analisadas por patologista, que avalia o grau de inflamação, presença de atrofia, metaplasia intestinal, displasia e identifica o H. pylori quando presente. Esta análise histopatológica é essencial para classificar adequadamente a gastrite e avaliar o risco de complicações futuras.

Testes para Detecção do Helicobacter pylori

A investigação do H. pylori é componente essencial na avaliação da gastrite. Existem métodos invasivos (que requerem endoscopia) e não invasivos. O teste da urease rápido, realizado com fragmento de biópsia gástrica, fornece resultado em minutos pela mudança de cor do meio de cultura quando a bactéria está presente. A histologia também pode identificar o microorganismo através de colorações especiais.

Outras formas de diagnosticar o H. pylori:

  • Teste respiratório com ureia marcada: método não invasivo com alta acurácia (sensibilidade e especificidade superiores a 95%)
  • Pesquisa de antígeno fecal: teste não invasivo, útil especialmente em crianças
  • Sorologia (anticorpos IgG): indica contato prévio, mas não diferencia infecção ativa de passada
  • Teste da urease rápido e histologia: métodos invasivos realizados durante endoscopia
  • Cultura bacteriana: reservada para casos de falha terapêutica para avaliar resistência antibiótica

É fundamental suspender inibidores de bomba de prótons por pelo menos 14 dias antes dos testes para H. pylori (exceto sorologia) para evitar falso-negativos. Antibióticos devem ser suspensos por pelo menos 28 dias.

Exames Complementares

Hemograma completo pode evidenciar anemia, que na gastrite crônica atrófica pode ser megaloblástica (por deficiência de vitamina B12) ou ferropriva (por sangramento oculto crônico). A dosagem sérica de vitamina B12, ácido fólico e ferritina pode ser necessária. Em casos de gastrite autoimune, solicita-se pesquisa de anticorpos anti-célula parietal e anti-fator intrínseco.

Tratamento da Gastrite: Abordagens Baseadas em Evidências

O tratamento da gastrite deve ser individualizado de acordo com a etiologia, gravidade das lesões, sintomas apresentados e presença de fatores de risco para complicações. A abordagem terapêutica envolve medidas farmacológicas, erradicação de agentes causadores e modificações de estilo de vida.

Erradicação do Helicobacter pylori

Quando o H. pylori é identificado, a erradicação é fortemente recomendada independentemente da presença ou intensidade dos sintomas, pois reduz o risco de úlcera péptica, câncer gástrico e linfoma MALT.

A escolha do esquema de tratamento considera taxas locais de resistência antibiótica, alergias medicamentosas, tratamentos prévios e disponibilidade das medicações. O teste de erradicação deve ser realizado pelo menos 4 semanas após o término do tratamento, preferencialmente por teste respiratório ou pesquisa de antígeno fecal.

Tratamento com Supressores de Ácido

Os inibidores de bomba de prótons (IBPs) são os medicamentos mais eficazes para redução da acidez gástrica, promovendo alívio sintomático e cicatrização da mucosa. O omeprazol, pantoprazol, lansoprazol, rabeprazol e esomeprazol são opções disponíveis, com eficácia semelhante quando utilizados em doses equipotentes.

Para gastrite sintomática sem H. pylori, o tratamento com IBP geralmente é mantido por 4 a 8 semanas. Em casos de gastrite erosiva ou hemorrágica, doses mais altas podem ser necessárias inicialmente. Os antagonistas de receptores H2 (ranitidina, famotidina) são alternativas de menor potência, reservadas para casos específicos ou quando os IBPs são contraindicados.

O uso prolongado de IBPs (superior a 3 meses) requer monitoramento médico devido a potenciais efeitos adversos como deficiência de vitamina B12, magnésio, aumento de risco de fraturas e infecções intestinais.

Modificações de Estilo de Vida e Medidas Dietéticas

Embora não existam evidências robustas de que alimentos específicos causem ou agravem gastrite, orientações dietéticas podem proporcionar alívio sintomático. Recomenda-se evitar alimentos que individualmente desencadeiam sintomas, reduzir cafeína, álcool e alimentos muito condimentados durante a fase aguda.

  • Cessar tabagismo, que prejudica a cicatrização da mucosa e reduz a eficácia do tratamento
  • Suspender ou substituir AINEs sempre que possível; quando indispensáveis, associar gastroprotetor
  • Fracionar as refeições em menor volume e maior frequência
  • Evitar deitar-se imediatamente após refeições
  • Manter peso saudável e praticar atividade física regular
  • Gerenciar adequadamente o estresse através de técnicas comprovadas

Nunca interrompa medicações prescritas sem orientação médica. Tratamentos incompletos, especialmente da infecção por H. pylori, podem levar a resistência bacteriana e recorrência dos sintomas.

Prevenção, Acompanhamento e Quando Procurar Atendimento

A prevenção da gastrite envolve principalmente evitar fatores de risco modificáveis e, quando a doença já está estabelecida, o acompanhamento adequado é fundamental para prevenir complicações e detectar precocemente alterações pré-neoplásicas.

Estratégias de Prevenção

A prevenção primária da gastrite por H. pylori envolve medidas de higiene, especialmente em países em desenvolvimento onde a transmissão é mais comum. Melhorias nas condições sanitárias, tratamento adequado de água e higiene alimentar reduzem a transmissão da bactéria. Para indivíduos com história familiar de câncer gástrico, o rastreamento e erradicação do H. pylori pode ser considerado.

A prevenção da gastrite medicamentosa requer uso criterioso de AINEs, optando pela menor dose efetiva pelo menor tempo necessário. Em pacientes de risco (idosos, história de úlcera ou sangramento, uso concomitante de anticoagulantes ou corticoides), deve-se associar IBP ou considerar alternativas como paracetamol ou anti-inflamatórios seletivos de COX-2.

Seguimento Endoscópico

Pacientes com gastrite atrófica e/ou metaplasia intestinal requerem vigilância endoscópica periódica, pois estas lesões aumentam o risco de adenocarcinoma gástrico. As diretrizes internacionais recomendam seguimento a cada 3 anos para metaplasia intestinal extensa ou atrofia grave, podendo ser individualizado conforme fatores de risco adicionais.

A presença de displasia (alteração pré-neoplásica) demanda abordagem mais rigorosa: displasia de baixo grau requer endoscopia de controle em 6 a 12 meses com múltiplas biópsias, enquanto displasia de alto grau geralmente indica tratamento endoscópico ressectivo, como mucosectomia ou dissecção submucosa.

Sinais de Alerta e Quando Buscar Atendimento

Determinadas manifestações clínicas requerem avaliação médica urgente ou imediata, pois podem indicar complicações graves da gastrite ou outras condições potencialmente sérias.

  • Vômitos com sangue (hematêmese) ou aspecto de borra de café
  • Fezes escurecidas (melena) ou sangue vivo nas evacuações
  • Dor abdominal intensa e persistente que não responde a medicações habituais
  • Vômitos repetidos que impedem alimentação e hidratação adequadas
  • Emagrecimento não intencional superior a 5% do peso corporal
  • Dificuldade progressiva para engolir (disfagia)
  • Anemia detectada em exames de rotina, especialmente se progressiva

A Clínica Okazaki conta com estrutura completa de gastroenterologia e endoscopia digestiva para diagnóstico e tratamento especializado da gastrite. Agende sua consulta.

Mesmo na ausência de sinais de alarme, sintomas digestivos persistentes por mais de 2-4 semanas merecem avaliação gastroenterológica. O diagnóstico precoce e tratamento adequado previnem evolução para complicações e melhoram significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

Pacientes acima de 45 anos com sintomas dispépticos de início recente devem realizar endoscopia digestiva alta para exclusão de lesões orgânicas, conforme recomendações das sociedades brasileira e americana de gastroenterologia.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre gastrite

  • O tempo de recuperação da gastrite depende da causa e gravidade. Gastrite aguda medicamentosa pode melhorar em 1-2 semanas após suspensão do agente causador e início de tratamento com supressores de ácido. Gastrite crônica por H. pylori requer erradicação da bactéria (tratamento de 14 dias) e a cicatrização completa da mucosa pode levar 4-8 semanas após tratamento bem-sucedido. Gastrite atrófica, por ser uma alteração crônica estabelecida, não reverte completamente, mas o tratamento adequado previne progressão. O acompanhamento médico é fundamental para avaliar resposta terapêutica e ajustar o tratamento quando necessário.

Responsável técnico: Dr. Ossamu Okazaki · CRM-PE 19246 · RQE 8449

Conteúdo informativo em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta médica ou exames.

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